Trauma

O que é um trauma e como saber identificá-lo?

Há vários sinais indicadores de trauma emocional. A passagem por experiências trágicas, tais como a perda real de pessoas queridas ou a ameaça de perda ou o risco de morte, não significam necessariamente que a pessoa venha a desenvolver um trauma. Um bom indício da existência do trauma é a impressão de que a experiência passada insiste em permanecer no presente. Basta à pessoa lembrar-se do evento perturbador, mesmo que sem querer, para que uma emoção marcante, pensamentos negativos e/ou imagens nítidas se intensifiquem. O assunto reluta em virar passado. Além da experiência traumática, outros sintomas típicos de PSPT são:

  • Re-experiência do trauma por meio de lembranças involuntárias, pesadelos ou reacções desproporcionais diante de pequenas coisas que façam lembrar o evento; choro fácil e sem motivo;
  • Evitamento persistente de pensamentos, diálogos, sentimentos, locais, pessoas ou situações que façam lembrar o trauma; incapacidade para lembrar de detalhes importantes do evento; distanciamento emocional e social de pessoas subjectivamente significativas; desesperança;
  • Dificuldade para adormecer ou manter-se adormecido, irritabilidade ou explosões de fúria, dificuldade de concentração, hiper-vigilância constante e prontidão contra alguma ameaça real ou imaginária; transtornos alimentares inexplicados; sobressaltos diante de estímulos neutros mínimos.

O que se está a passar no cérebro?

Estudos realizados com o auxílio de tomografias de alta precisão sugerem que a experiência traumática é tão forte que altera o funcionamento cerebral. Quando o cérebro é submetido a stress crónico, o indivíduo perde em qualidade de vida. Um dos princípios do EMDR é que o trauma emocional deve ser considerado mais como um fisiotrauma do que um psicotrauma. Essa hipótese revolucionária encontra amparo em inúmeras pesquisas feitas com pacientes portadores de stress agudo e PSPT. A partir de imagens feitas com PET e SPECT-scans, observam-se diferenças significativas em certas áreas cerebrais relacionadas à emoção (imagens ilustrativas). Dentro dessas regiões, destacam-se em especial hiperatividade neuronal no córtex visual, no sistema límbico, no giro-cingulado e/ou nos gânglios basais. Simultaneamente, observa-se inibição acentuada de actividade de áreas mais cognitivas (córtex pré-frontal e área de Broca). Como resultado, a pessoa sente o trauma, mas não consegue compreendê-lo e reprocessá-lo adequadamente. O passado persiste no presente. O paciente relata o trauma como se houvesse ocorrido há pouco tempo.
 
A partir dessa digressão neurológica, depreende-se que solicitar ao paciente que fale (terapia da fala) sobre seu trauma desgasta-o por meses ou anos inutilmente, pois a cognição encontra-se dissociada de regiões cerebrais responsáveis pela memória emocional. O referencial teórico adoptado pelo EMDR parte do pressuposto de que quase todos os transtornos mentais sejam resultantes de eventos traumáticos no passado.
 
Por sinal, essa hipótese foi formulada há mais de um século por Freud (teoria do trauma como etiologia da histeria de conversão, hoje denominada de transtorno somatoforme) e posteriormente desqualificada também por ele por meio da teoria da sedução, segundo a qual bastaria à paciente desejar ter sofrido abuso sexual para desenvolver sintomatologia conversiva/dissociativa. Infelizmente na época, Freud não dispunha de dados para amparar a formulação de que tantos adultos teriam sofrido de abusos (sexual, emocional, físico) na infância.

O que acontece com a memória em situação de trauma?

A memória traumática difere da memória comum. Ao ser questionado sobre a ementa do almoço de quinta-feira da semana passada, uma pessoa provavelmente responderia: “Não faço ideia!”. Neste caso, a memória dispersou-se no passado. A memória do trauma, contudo, guarda detalhes visuais, às vezes auditivos, às vezes físicos, às vezes emocionais, como se tivesse ocorrido há pouco tempo. O indivíduo pode lembrar-se dos sons ambientes, dos talheres, das bebidas, do sabor dos alimentos. A memória fica, portanto, registada e congelada no cérebro, principalmente no hemisfério direito, grande responsável por gerir as nossas emoções. Por outro lado, as ferramentas que nos permitem dar um novo significado à experiência e deixá-la finalmente no passado se encontram-se no hemisfério esquerdo, responsável pela nossa objectividade e racionalidade.